• 25 janeiro

    Casa saudável: saiba como ambiente influencia no seu bem-estar

    Você já teve a sensação de que não conseguia focar em algo ou produzir como gostaria porque o ambiente onde estava encontrava-se bagunçado ou desconfortável? Pois saiba que as condições dos ambientes têm reflexos imediatos na saúde física e mental. Especialistas da área da psicologia chamam isso de relação pessoa-ambiente.

    "São todas as maneiras através das quais os ambientes influenciam nossos sentimentos, pensamentos e comportamentos e, na outra direção, todos os modos como esses sentimentos, pensamentos e comportamentos afetam os ambientes ao nosso redor", explica a arquiteta e mestre em psicologia Maíra Longhinotti Felippe, professora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

    Segundo ela, esta é uma conexão que compreende não um, mas múltiplos modos de relação, que variam conforme o indivíduo, grupo social e o contexto cultural, político e econômico.

    Ao se falar da principal relação pessoa-ambiente, ou seja, o nosso lar, o reflexo no estado emocional fica ainda mais evidente, pois o local em que vivemos é parte de nós ou, como bem conceituou o artista, arquiteto e ecologista Friedenreich Hundertwasse (1928-2000, Áustria), "nossa casa é nossa terceira pele" —ele considerava a primeira pele a própria epiderme e a segunda, o vestuário.

    Como a sensação de bem-estar decorre de uma correspondência entre aquilo que se espera do ambiente e aquilo que o ambiente realmente é ou oferece, quanto maior a identificação com o local, consequentemente, melhor a sensação. "Todos nós temos nosso próprio 'padrão interno' de referência acerca de como os ambientes são ou deveriam ser. Isso é o que chamamos de identidade de lugar. É como um aspecto da nossa própria identidade pessoal: existem características que nos definem enquanto pessoa, da mesma forma que existem características que definem o que esperamos ou queremos de um ambiente", explica Felippe.

    O designer carioca Moacir Moreira Gomes, 55, por exemplo, aprecia o estilo minimalista de viver e aproveitou uma fase de mudanças em sua vida pessoal para colocar em prática seu desejo de ter menos coisas e ganhar mais espaço, criando assim uma maior identificação com seu lar: "Após minha separação, há pouco mais de três anos, resolvi parar de comprar livros e DVDs, além de usar os utensílios domésticos, roupas, inclusive de cama e banho, e sapatos até que eu precisasse realmente comprar novos. Não compro mais nada por impulso".

    Moacir diminuiu seu consumo e fez uma "limpa" na estante de livros, doando os títulos que tinha certeza que não leria mais. "Ainda estou apegado a alguns objetos, mas sinto que essa mudança de pensamento e atitude impacta diretamente na minha qualidade de vida, meu orçamento e minha saúde", diz.

    Ele se considera uma pessoa organizada e as mudanças que adotou, desfazendo-se de coisas que deixaram de ser necessárias, refletem isso e reforçam o sentimento de bem-estar, uma vez que seu estilo propicia uma casa mais em ordem e limpa.

    Bagunça é sempre ruim?

    Apesar de algumas pessoas, como Moacir, precisarem de um ambiente em ordem para ter qualidade de vida, a médica psiquiatra Vera Garcia diz que há quem consiga se encontrar nas suas bagunças e viver bem assim. Enquanto há outras que demonstram preocupação exagerada com arrumação e/ou limpeza, a ponto de sentirem profundo mal-estar se algo estiver fora do lugar.

    Segunda ela, os extremos nunca são bons. "Há indivíduos que por perceberem uma incapacidade de se organizarem, ficam imobilizados, causando prejuízos para a vida profissional, social e familiar. No outro extremo, encontram-se aquelas pessoas que demonstram preocupação exagerada com arrumação e/ou limpeza, sentindo profundo mal-estar se algo estiver fora do lugar. Frequentemente, são pessoas com traços obsessivos ou que sofrem de TOC, transtorno obsessivo-compulsivo".

    A questão é identificar o quanto estamos bem em nosso lar, ou seja, o quanto nos sentimos de fato em nossa "terceira pele". Quando a resposta a esse questionamento for não, é hora de arregaçar as mangas e adotar mudanças com o objetivo de conquistar mais qualidade de vida. Foi o que fez Carol Ferraz, 30, uma ex-bagunceira convicta, que hoje atua em São Paulo como consultora master do Método Marie Kondo, a japonesa que é referência mundial em organização.

    Antes da mudança em sua trajetória profissional, Ferraz trabalhava na área de comunicação de uma grande empresa, até que um episódio que parecia ser trivial —perder a chave de casa— a fez identificar a importância de adotar mudanças definitivas e para melhor. O fato é que não era apenas uma chave —o objeto perdido estava acompanhado de valor sentimental: "Junto com ela, tinha uma medalhinha de identificação da minha falecida cachorrinha, dois chaveiros muito amados e um vira-tempo".

    Este foi o clique que faltava para ela dar um basta na fama de bagunceira. Então, mergulhou fundo no assunto com Marie Kondo e relacionou o tema organização com as matérias do curso de pós-graduação em semiótica e psicanálise, que cursava na época. Em todo o processo, reorganizou a própria casa e caminhou em direção a uma identidade de lugar que melhor correspondesse à nova Carol Ferraz que surgia: "quando terminei, eu só pensava: como a vida ficou mais fácil!".

    Toda a empreitada inspirou até o nome de seu site: "Onde Eu Deixei". E ao receber o feedback de seus clientes, após verem a casa reorganizada graças as suas orientações, Carol parece ouvir o eco do seu primeiro passo nesta nova caminhada. "Eles costumam dizer que tudo ficou mais simples, mais fácil. É como se a vida começasse a rodar. As pessoas entram no processo achando que vão organizar o guarda-roupa, mas, com a condução, acabam tirando os sentimentos das gavetas".

    Novo ano, nova casa

    Nosso lar é o ambiente de maior intimidade para nós, como explica o psicólogo Denis Barros de Carvalho, professor da UFPI (Universidade Federal do Piauí): "A casa é um ambiente especial, pois é o espaço de intimidade, o que significa, entre outras coisas, ser você mesmo, sem se preocupar muito com as expectativas da sociedade acerca do que se deve ser. É um espaço investido de afetos e, assim como as pessoas, também pode mudar muito, tornando-se diferente do que já foi um dia".

    E para quem já pensava em dar aquela prioridade para a organização na casa, liberar espaços nas gavetas e armários, com a chegada deste novo ano, ele deixa aqui uma dica: "Devemos preservar a memória de boas coisas que estão fixadas no espaço em que vivemos e, ao mesmo tempo, aproveitar para mudar o ambiente (móveis, pintura de paredes), pois mudando o ambiente é possível assimilar que mudanças são possíveis, necessárias e, em certas circunstâncias, produzem resultados prazerosos".

    Fonte: UOL-Viva bem

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